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Eu, que estava dirigindo, certamente por falta de perspicácia (que quase sempre me falta, ainda mais em momentos tão solenes) sobre o que fazer exatamente, ainda mais naquela situação limite, fui falando de coisas tolas, quase sempre diretamente prá minha mulher, e outras vezes diretamente prá minha mãe, que estava deitada no banco de trás do carro.
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Como se falar tolices pudesse assegurar a continuidade da vida, como se evitar encarar a morte a fizesse desviar daquele ser fragilizado e adoentado, como se se pudesse driblar a morte e fazê-la passar ao largo daquele carro insignificante, entre milhares de outros igualmente insignificantes, entre incontáveis outras insignificâncias reunidas...
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Como se alguma coisa... como se qualquer coisa...
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Ao chegarmos, ela desceu do carro, pronta para caminhar por sí mesma, apenas apoiada levemente por minha mulher. Um percurso curto, da recepção até a enfermaria, para quem estivesse saudável. E um longo percurso, para uma pessoa doente. Caminhada, curta ou longa, que acabou não sendo necessária: alguém trouxe uma cadeira de rodas. Eu soube depois que o médico que acompanhava sua doença, agora em fase terminal, ficou surpreso que ela ainda conseguisse andar...
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