quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Botas de couro

Ela estava linda. E como poderia não estar? Como seria possivel uma menina-mulher, linda, aos dezesseis anos, não estar mais linda ainda no dia em que se despiria pela primeira vez para seu amado eleito, seu primeiro namorado? No dia em que, pela primeira vez, ficaria nua para o homem-menino que também a amava? Ela devia mesmo estar linda, esse era o desejo explícito da natureza, até porque esse é um momento que nem todos têm a chance de viver, o momento de amar e de ser amado pela primeira vez...
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Ela estava ofegante. Natural que estivesse assim desde horas antes, a partir do momento do dia em que ela intuiu e pressentiu o que aconteceria com ela naquela noite. Era uma segunda-feira qualquer - e uma segunda-feira única, que jamais voltaria - na cidade onde eles estavam havia um caos causado por fortes chuvas, e alagamentos em bairros periféricos. Tudo parecia fora de lugar. Como se as coisas humanas algum dia tivessem estado em seus lugares.
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Ela estava com um macacão verde escuro. De veludo. Numa época em que veludo tinha um significado especial, que não voltou a ter. E que, talvez, nunca volte. Aquele tecido remetia a sofisticação e algo romântico. De séculos anteriores. Ela estava de botas compridas, pretas, que chegavam aos seus joelhos. Pele clara, macia, cabelos escuros, ondulados, olhos negros, daqueles olhos negros em que só dá para ver as pupilas bem de pertinho. Uma beleza feita para durar muitas décadas, portanto ainda mais deslumbrante quando surpreendida no auge de seus dezesseis anos.
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