-“O Boldrin faltou...”, uma aluna falava prá outra, logo no início da fila que começava a se formar. Mas sua fala foi interrompida por outra voz mais poderosa.
-“As aulas estão suspensas hoje...”, comunicou, do mini-palco elevado, o inspetor de alunos, logo que os meninos e as meninas aglomeraram-se no pátio para a formação da fila de entrada. Nos cursos primários da rede pública de então, a entrada em sala era sempre precedida pela formação das filas das turmas no pátio. Uma vez perfilados, cantava-se o Hino Nacional. (Quase todos pareciam acreditar na propaganda oficial de que éramos 'o país do futuro'. Daí certos comportamentos serem comuns, e hoje, que chegamos ao futuro, terem rareado...)
Em seguida, todos subiam para suas salas, formando um trenzinho mirim, com vagões novinhos, de apenas oito anos cada, estridente e feliz, todos com a mesma blusa azul-marinho por cima, camisa branca de mangas curtas e a peça inferior cinza para ambos. Calças compridas para os meninos. Saia – até os joelhos – para as meninas. O mundo parecia bom prá eles, que eram crianças.
Se o mundo não parece bom prá uma criança, vai parecer bom prá quem? Tudo ainda era relativamente simples, ao menos se comparado ao mundo atual. A corrida espacial engatinhava. O mundo se globalizava. O rock’n’roll era adolescente. A política nacional, como sempre, chafurdava.
Todos eles eram crianças, eram e estavam crianças, vivendo esse ínterim de idade mais autêntico da vida das pessoas. (Não só das pessoas. Na verdade, até para a maioria das espécies animais a infância é divertida, agitada, irresponsável. Um período em que se é protegido, que se trabalha menos, que se caça menos. Até porque criança não persegue e mata. Nem para comer...)
-“Só vamos cantar o Hino, mas, em seguida, a professora da turma do Boldrin vai levar os alunos dela até a casa dele... as outras turmas estão dispensadas!”, o inspetor continuou informando.
-“Que que aconteceu?...”, era o que alguns perguntavam na fila. Antes que se tivesse tempo para responder, ele mesmo veio com o triste esclarecimento.
-“A mãe do Boldrin morreu!...”, completou o inspetor, descendo do mini-palco, sem pausas, tanto no caminhar quanto na frase e só deixando para respirar nas reticências, após o ponto de exclamação.
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