Minha mãe, e suas vizinhas, todas elas esposas de operários da florescente indústria automobilística do ABC paulista, já haviam preparado sacolas de comida, salgadinhos, empadinhas, bolos e coisas e tal, que já estavam devidamente acondicionados em tigelas, panelas ou apenas embrulhadas nas próprias toalhas que usávamos rotineiramente em nossas casas. Era como o suprimento da caravana que se preparava para partir.
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O dia ainda mal tinha clareado e já havia um forte burburinho nos portões, ao longo da rua; os meninos já desembestavam em correrias sem pódio e sem ponto de partida nem ponto de chegada; as meninas já apareciam, curiosas, arrumadas como se fossem para uma festa; os homens falavam acerca do horário, do clima, das condições da estrada, de futebol, dos preparativos, dos planos de viagens, etc., falavam coisas de homens, porque aquela era uma época em que havia mais sentido em expressões como ‘coisas de homens’, ‘assuntos de mulheres’, etc.
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De repente, o burburinho tornava-se mais forte, o telefone-sem-fio do boca-ouvido-boca comunicava o fato esperado do dia: o ônibus estava chegando! Alguém já gritara da esquina mais próxima à avenida: o ônibus está chegando! O ônibus está chegando! Era um êxtase, um delírio coletivo, uma comemoração de copa do mundo: era verdade, o ônibus estava chegando!
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E o ônibus chegou! Sua silhueta de metal, imponente, seus bancos revestidos de plástico, suas cortininhas cor-de-vinho, seu cheiro de óleo diesel, imponente máquina humana no cenário da madrugada, como se sua chegada fizesse também chegar os primeiros raios de claridade do dia. De algum modo a chegada do ônibus parecia a chegada de um Cavalo de Tróia, por seu mistério e imponência. Mas um Cavalo de Tróia benigno, carregado de amigos e de boas intenções...
Memórias da infância são sempre muito prazerosas de serem relembradas, independente de qual época foi essa infância! Gosto muito dos seus textos, tio! Ricos em detalhes, sentimentos, atenção... Continuarei acompanhando! Abraços
ResponderExcluirFico feliz de voce gostar dos textos, Rene. Escrever/ler é realmente prazeroso. E reforça as ligações entre as pessoas. Abraços, Roberto
ExcluirDaddy, q epoca boa deve ter sido essa! Queria ter vivido. Ou pelo menos poder ter o dom de voltar no tempo e ver a sua carinha qdo esse busao apareceu na esquina! Q bom q eu nasci sua filha!
ResponderExcluirFilha linda! Most beautiful and funny of all!! Tenho 'estoques' de boas lembranças para poder compartilhar com voces. Te amo, Roberto.
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