Ele estava ali, com seus dez anos, lindo, um homem completo ou ainda um menino muito incompleto (ou ambos), dependendo do quesito que se quisesse avaliar isoladamente. Bem vestido, bem nutrido, com uma carga cultural boa para a sua idade (acima da grande maioria das pessoas de sua idade). Às vezes, aparentemente, absorto num detalhe ou noutro. Difícil dizer.
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Os ecos das aeromoças se aproximavam: coke? beer?... E aquelas vozes se tornavam pouco a pouco mais próximas. Alguns passageiros brasileiros, a maioria dos passageiros, se mexiam incomodados em suas cadeiras. Alguns repassando mentalmente o que iriam dizer, em inglês, àquelas loiras americanas, àqueles americanos de pele bem branca, a maioria de olhos claros. Quando a presença da primeira aeromoça norte americana marcou seu perfil no corredor, a vários metros de nós, e de meu filho, provavelmente no exato instante em que o olhar dela cruzou com o dele, ele disparou em sua direção, fria e rapidamente, como se fosse o vencedor de um duelo de bang-bang: “Orange juice, please!... No ice!”, ele disse, rápido no gatilho.
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Foi como um disparo de arma potente e de alta tecnologia. Seco e certeiro: “Orange juice, please!... no ice!” E, subitamente o burburinho das pessoas dentro daquela nave cessou. Tudo o mais, a não ser o eco dessas duas frases, virou silêncio... (Orange juice, please! No ice!) E talvez aquele silêncio todo tenha começado na letra ‘o’ da palavra ‘orange’ e se intensificado antes do ‘no’, de modo que a aeromoça, certamente, ouviu a frase inteira, clara e sonoramente, límpida e vigorosamente, tranqüila e soberanamente.
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E não lhe restou alternativa senão dar meia-volta e ir cumprir rapidamente aquela ordem tão clara: Orange juice, please... No ice!!!
Fli, queria ter estado com vcs este dia... sao tantas historias da nossa vida...
ResponderExcluirVoce ESTAVA conosco naquele dia!!! te amo, beijos.
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